Subindo o Villarica

Não posso mentir. Meu plano inicial quando pensei em fazer algo parecido com uma escalada no Chile era escalar o Osorno. Li uma reportagem a respeito do assunto e achei a estória toda bem legal. As fotos então...fenomenais. O problema é que pra começar a brincadeira eu tinha que dispor de pelo menos 250 USD pra encarar a brincadeira. Achei salgado demais, por mais técnico, desafiador, instigante que fosse.

Ai veio a estória do Villarica. Tudo bem não é nem de longe uma escalada. Mas para um brasileiro que leu muito livro do Krakauer, tava de bom tamanho. Com aproximadamente 30 doletas, você financia este passeio de um dia até o cume de um vulcão. Não é algo que se consegue fazer todos os dias né? Pois bem novamente topei fazer com a Trancura. As 7:30 chegamos no escritório (um pouco atrasados... e ainda comendo o nosso café). Lá outras 25 pessoas aparentemente tão empolgadas aguardavam as instruções dos guias. São distribuídas as roupas: calças especiais (com uns reforços de borracha na bunda...depois descobri por que), polainas, um anorak (corta-viento) impermeável e uma mochila com um máscara de gás e grampons. Me senti um terrorista químico. Ah! As botas especiais pra neve. Duplas, e que fazem você andar como um astronauta manco.

Últimas instruções antes do início da escalada no trecho de neve e gelo.

 

Uma van leva os pseudo-alpinistas até o PN Villarica, onde está o vulcão. Lá se sobe por uma estrada até um teleférico que se estiver funcionando pode ser usado para cortar uma parte da subida que é feita em um terreno de areia horroroso e fofo. Não se intimide para pegar o teleférico é bem melhor do que gastar uma hora de um fôlego que pode fazer falta depois. Também é no início da caminhada que você é agraciado com uma arma medieval: o piolet ou ice axe. Misto de bengala, bastão de trekking, lança e machado, deve ser o sonho de consumo de qualquer serial-killer de cinema.

Subindo com o auxílio do piolet.

Do terminal dos teleféricos em diante, é caminhando. Ou melhor marchando por que com aquela bota ninguém anda direito. São feitas três paradas antes de chegar ao cume. A atividade do vulcão é inquestionável já que ao longo da trilha pode-se ver pedregulhos negros no fundo de pequenas crateras na neve. Trata-se de material expelido pelo vulcão.

Ao atingir o cume, tem se uma vista magistral. No meu caso de um tapete de nuvens já que o tempo virou durante a caminhada. Lá em cima dá pra ver as incríveis formações esculpidas no gelo pelo frio e os vapores do vulcão. Se a atividade estiver muito elevada, pode-se usar as máscaras para atenuar o fedor de enxofre. Outra curiosidade é a possibilidade de ver o Lanín, na Argentina com seus 3700m.
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No cume. Na beira da cretera

 

Talvez a volta seja uma das partes mais interessantes. É o "cullopatins". A descida é feita escorregando em umas trilhas de neve e gelo. Tudo isso com o bendito piolet nas mãos, que por sinal funciona como um breque de mão. A descida é maravilhosa ( os sons do gelo sendo rasgado pelo piolet são de arrepiar), mas convém manter os olhos abertos, principalmente naquele cara distraído com um piolet afiado nas mãos. Vi pelo menos um quase-acidente. Na fúria de frear, um alemão cravou o piolet na sua própria perna.... ...bem quase. Ele conseguiu rasgar a calça de proteção e a sua própria calça mas nem se arranhou.