O Brasil vive de costas pra América Latina.

Falem o que quiserem, mas essa é a grande verdade. Pra começar, não falamos espanhol. E não nos damos ao menor trabalho de aprender. 90% de nós não faz idéia de quem foi Simon Bolívar, ainda que ele tenha libertado metade do continente.

Para nós a história da América Latina, com raras exceções, acaba no primeiro capítulo, com a chegada dos espanhóis. Depois vêm 500 anos de um limbo cinzento. Os Andes, soam tão distantes da nossa realidade como qualquer pico do Himalaia. No nosso cotidiano neve e gelo, são anomalias climáticas.

Enfim, estar na América Latina, para a maioria dos brasileiros é um acaso. Uma pena. Pois vivemos em um continente fantástico. Imbuído deste espirito, e com férias postergadas a anos, busquei um roteiro que pudesse contemplar parte deste notável mundo novo (para mim). Com tempo escasso, e orçamento idem, revisei roteiros desde a Venezuela e Equador, passando pelo Peru, Bolivia, Argentina e Chile.

As alternativas eram muitas. Desde a já tradicional saída de ônibus até a Bolívia com destino a Macchu Pichu até os 1000m de queda do Salto Angel. Mas em nenhum lugar eu tinha uma concentração de opções tão distintas quanto naquela tira de milhares de quilômetros, com vista para o Pacífico e escondida pela Cordilheira. O Chile sem dúvida ia ser a bola da vez.

O problema era escolher dentro daquele pequeno universo, para que lado ir? Com desertos, montanhas, lagos, vulcões, geleiras... A primeira decisão (e das mais dolorosas) era de que com os vinte e poucos dias que poderia tirar não daria para conhecer tudo que tinha vontade. Até daria, mas numa correria que não seria exatamente o que eu tinha em mente. Com isso acabei batendo o martelo em um roteiro menos audacioso na sua quilometragem (o que não o eximiu de longas viagens de ônibus), mas ainda assim maravilhoso (pelo menos para mim!).

Foram dezoito dias rodando por um país formal, mas absolutamente hospitaleiro, diferente e ao mesmo tempo familiar, em suma, uma terra de antagonismos que de alguma forma me fez despertar para os inúmeros paralelos que dividimos com estes vizinhos de bloco. Não sai menos brasileiro desta jornada, mas definitivamente um pouquinho mais latino.

 

Vinicius Matarazzo